Milton Ferro
As Cartas do Guairá, aqui vertidas para o português por Milton Ferro, são testemunhas eloqüentes da formidável epopéia do desbravamento da região do Guairá, que hoje integra o território do atual Estado do Paraná (Brasil), e cujos atores principais foram os jesuítas espanhóis e os bandeirantes paulistas. (Extraídas dos Manuscritos da Coleção De Angelis, in JESUÍTAS E BANDEIRANTES NO GUAIRÁ (1594 – 1640). Introdução, Notas e Glossário por Jaime Cortesão. Biblioteca Nacional, Divisão de Obras Raras e Publicações. Rio de Janeiro, 1951). XXII – PARECER DO PADRE DIOGO GONÇALVES SOBRE OS DIFERENTES GÊNEROS DE “MALOCAS”, AS SUAS INJUSTIÇAS E A MANEIRA DE RESTITUIR OS ÍNDIOS ILICITAMENTE ESCRAVIZADOS. ASSUNÇÃO, 01 DE JULHO DE 1610. De tres generos de Malocas, que ay, y de la Ynjusticia dellas y su restituçion y a quien y como. 1. Julio 610.
La pr.ª maloça (sic) que es mas claram.te ynjusta es las que se açe a los gentiles q. no nos han ofendido ni resistido ni inpidido paso o camino o rio como sõ los mayas y los guatues y otros yndios mansos, y a estos ni el gobernador ni el rey Puede dar liçençia. Para açerles guerra ni tomarles uma pieça aunq. no quierã ser xpnos ni sugetarse al rey por que son libres y ynoçentes y asi el Rey no manda mas de que se les rruege que se cõbiertan y se les pedrique (sic) sin açerles daño. luego menos Podra el teniente de gobernador ni los soldados a esto le deben obedecer antes se llamaria amotinador el juez que a tal les obligase porque le da causa justa al motin por mandar cosa ynjusta y le puede el Rey castigar con las penas de amotinador que son las de traydor y queda el tal juez con cargo de restituyr todos los daños, muertes, robos, Prisiones, Serviçios personales en que çaen por su causa cõ gera (sic) ynjusta a lo qual los dotores no llaman gera (sic) sino invasion atroz, violençia, homicídios, rapina o robo de personas y de cosas y truçidaçiõ sangrienta q. es imposible satisfazerla. La 2ª maloca es ynjustissima Aunque muchos se engañan Pensando que se açe justamente y es q.do van a sacar los yndios de las ladroneras que llamã que son montes escõdidos o lugares fuertes donde se huyen por no querer cõsentir las ynjusticias, agrabios y daños que les causa La maldita Servidübre a que los obligan con el serviçio personal, el qual porque se yntroduxo por violencia, codicia, sin voluntad del rey antes contra sus Reales çedulas que prohiben el serviçio Personal y lo manda quitar a los gobernadores y diçe en uma çedula q. le tiene engañado diçiendo que no ay Serviçio personal y no Por otro. Los que gobiernan y solapan y encubren todos a los yndios las çedulas del rey que son en su fabor y dexan al suçesor que lo execute mostrãdo todos que no tienen brio por si, Pues encomiendan a otro lo dificultoso de la just.ª que ellos no pueden ni tienen brio Para executar dejando de açer just.ª a los probes (sic) y premitiendoles ynfinitos daños que los encomenderos les causan a q. los enbie el Rey a defender los yndios que encomienda la just.ª de los Pobres a los juezes todo lo atropellan por los ricos y autoriçan sus agrabios. (Continua) xpnos = cristianos (cristãos) ladroneras = abrigo de índios que fugiam da servidão.
A primeira maloca, que é mais claramente injusta, é a que se faz aos gentios que não nos hão ofendido nem resistido, nem impedido passagem, caminho ou rio, como são os mbaias e os guatós e outros índios mansos, e a isto nem o governador nem o rei pode dar licença. Para fazer-lhes guerra nem tomar-lhes uma peça, ainda que não queiram ser cristãos nem sujeitar-se al rei, porque são livres e inocentes, e assim o rei não manda mais de que se lhes rogue que se convertam e se lhes pregue, sem fazer-lhes dano. Logo, menos poderá o tenente de governador, nem os soldados a isto lhe devem obedecer, antes se chamaria amotinador o juiz que a tal lhes obrigasse, porque dá causa justa ao motim, por mandar coisa injusta, e lhe pode o rei castigar com as penas de amotinador, que são as de traidor, e fica o tal juiz com encargo de restituir todos os danos, mortes, roubos, prisões, serviços pessoais em que saem por sua causa com guerra injusta, à qual os doutores não chamam guerra, senão invasão atroz, violência, homicídios, rapina ou roubo de pessoas e de coisas, e trucidação sangrenta, que é impossível satisfazer. A segunda maloca é injustíssima. Ainda que muitos se enganam pensando que se faz justamente, e é quando vão tirar os índios das ladroneras, como chamam, que são sítios escondidos ou lugares fortes para onde fogem por não querer consentir as injustiças, agravos e danos que lhes causa a maldita servidão a que os obrigam com o serviço pessoal, o qual, porque se introduziu por violência, ambição, sem vontade do rei, antes contra suas reais cédulas, que proíbem o serviço pessoal e o manda extinguir aos governadores, e diz em uma cédula que lhe tem enganado, dizendo que não há serviço pessoal, e não por outro. Os que governam e solapam e encobrem todos aos índios as cédulas do rei que são em seu favor, e deixam ao sucessor que o execute, mostrando todos que não têm brio por si, pois encomendam a outro o dificultoso da justiça que eles não podem nem têm brio para executar, deixando de fazer justiça aos pobres e permitindo-lhes infinitos danos que os encomenderos causam a quem envie o rei a defender os índios, que encomenda a justiça dos pobres aos juízes, tudo atropelam pelos ricos, e autorizam seus agravos. maloca = expedição para captura de índios encomenderos = colonos que tinham índios sob sua responsabilidade (encomendas)